Em novembro de 2023, o programa de investigação neerlandês Zembla publicou um documentário dedicado às origens e à evidência científica do chamado “protocolo holandês” para o tratamento de jovens com disforia de género.
Nos Países Baixos, quase 3.000 jovens encontravam-se então em lista de espera para receber cuidados relacionados com a identidade de género. Foi precisamente em Amesterdão que nasceu o modelo que viria a exercer uma influência decisiva sobre a medicina de género pediátrica em vários países.
Durante anos, esta abordagem foi apresentada como pioneira: bloqueadores da puberdade durante a adolescência, seguidos, em muitos casos, de hormonas do sexo oposto e posteriormente de intervenções cirúrgicas.
Mas, já em 2023, o modelo que ajudou a definir o tratamento internacional estava sob crescente escrutínio.
Neste documentário, o Zembla regressa às origens do protocolo e analisa a evidência científica apresentada pelos clínicos de Amesterdão para justificar esta abordagem. Especialistas internacionais questionam a robustez dessa evidência e levantam dúvidas sobre a forma como resultados obtidos em grupos pequenos e muito específicos foram posteriormente generalizados para populações bastante diferentes.
A questão é particularmente relevante porque aquilo que começou como uma abordagem clínica cuidadosamente delimitada nos Países Baixos acabou por se transformar num modelo internacional de tratamento para milhares de crianças e adolescentes.
O documentário coloca, assim, uma questão fundamental: até que ponto o chamado “protocolo holandês” foi realmente sustentado por evidência científica sólida — e até que ponto a medicina de género pediátrica avançou mais depressa do que a própria ciência?
Importa sublinhar a data: esta investigação foi emitida em novembro de 2023, antes da publicação da Cass Review, em abril de 2024, e antes de várias das revisões e restrições que posteriormente intensificaram o escrutínio internacional sobre estas intervenções.