ESCAP (2024): Sociedade Europeia de Psiquiatria da Infância alerta para falta de evidência robusta e exige regresso aos princípios fundamentais da medicina

O statement da European Society for Child and Adolescent Psychiatry (ESCAP), publicado em 2024 na revista European Child & Adolescent Psychiatry, representa uma posição institucional de alto nível da principal sociedade europeia de psiquiatria da infância e adolescência. O documento surge num contexto de crescimento rápido de diagnósticos e de mudanças clínicas aceleradas, e faz um apelo explícito à necessidade urgente de proteger os padrões clínicos, científicos e éticos na abordagem à disforia de género em menores.

Principais conclusões

  • Existe falta de evidência robusta sobre a eficácia e segurança de intervenções médicas como bloqueadores da puberdade e hormonas cruzadas em crianças e adolescentes;
  • A ESCAP alerta para o risco de utilização de tratamentos potencialmente invasivos e ainda não suficientemente comprovados, especialmente em populações vulneráveis;
  • Sublinha-se que muitos jovens apresentam quadros clínicos complexos, incluindo comorbilidades psiquiátricas significativas, exigindo avaliação aprofundada e não respostas simplificadas;

Princípios clínicos fundamentais reafirmados

A ESCAP insiste que qualquer abordagem deve respeitar princípios básicos da
medicina:

  • “First, do no harm” (não causar dano) como orientação central;
  • Avaliação individual rigorosa, incluindo:
    • o desenvolvimento cognitivo;
    • o maturidade emocional;
    • o capacidade de consentimento;
  • Necessidade de acompanhamento psiquiátrico e psicológico adequado, antes de qualquer decisão médica relevante;

Advertências críticas

A ESCAP alerta contra a promoção de intervenções experimentais ou irreversíveis sem base científica sólida; Identifica risco de:

  • o viés de publicação (estudos positivos mais divulgados do que negativos);
  • o pressão ideológica no debate científico;

Defende que a investigação deve ser guiada pela qualidade metodológica e não por resultados desejados;

Recomendações estruturais

  • Criação de registos clínicos e sistemas de acompanhamento longitudinal, incluindo:
    • o jovens tratados;
    • o jovens não tratados;
    • o casos de descontinuação ou destransição;
  • Reforço da investigação independente para compreender melhor os efeitos a longo prazo das diferentes abordagens, incluindo os seus impactos psicológicos, físicos e sociais;

Implicações para a afirmação social de género

Embora o documento da ESCAP se centre sobretudo nas intervenções médicas, as preocupações expressas pela sociedade europeia têm relevância mais ampla. A ESCAP alerta para a crescente tendência de simplificar quadros clínicos frequentemente complexos e heterogéneos, recordando que muitos destes jovens apresentam comorbilidades psiquiátricas significativas e trajetórias desenvolvimentais que exigem análise cuidadosa.

Neste contexto, o documento defende que o processo clínico não deve partir de pressupostos prévios acerca da identidade futura do jovem, mas sim manter uma postura exploratória, aberta e baseada na avaliação individual. A insistência da ESCAP na necessidade de compreender adequadamente o desenvolvimento cognitivo, emocional e psicológico de cada criança ou adolescente constitui um argumento adicional contra respostas rápidas ou padronizadas, incluindo quando estão em causa medidas de afirmação social potencialmente relevantes para a
evolução posterior do caso.

Dimensão ética e científica

O documento sublinha que:

  • decisões médicas com impacto duradouro exigem elevado grau de certeza científica;
  • o consentimento deve ser compatível com o nível de desenvolvimento da criança ou adolescente;
  • deve ser garantido um debate profissional plural, com respeito por diferentes posições clínicas e científicas.

Conclusão

A posição da ESCAP é clara: não existe base científica suficientemente sólida para justificar abordagens automáticas ou aceleradas em menores com disforia de género.

Defende-se, em vez disso:

  • prudência clínica;
  • avaliação multidisciplinar rigorosa;
  • acompanhamento psicológico adequado;
  • investigação de alta qualidade;
  • proteção reforçada de crianças e adolescentes.

A necessidade de compreender melhor a evolução natural da disforia, as comorbilidades associadas e os efeitos psicológicos, físicos e sociais das diferentes intervenções constitui um argumento adicional a favor de cautela tanto perante a medicalização precoce como perante medidas de afirmação social adotadas sem avaliação aprofundada. Para decisores políticos, este documento constitui um forte alerta europeu: políticas públicas nesta área devem ser cuidadosamente fundamentadas, evitando decisões precipitadas em contextos de elevada incerteza científica.

Referência

Drobnič Radobuljac, M., et al. (ESCAP Policy Division & Board). (2024). ESCAP statement on the care for children and adolescents with gender dysphoria: an urgent need for safeguarding clinical, scientific and ethical standards. European Child & Adolescent Psychiatry.

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