A posição oficial da American Society of Plastic Surgeons (ASPS), publicada em 2026, representa uma evolução significativa no panorama médico norte-americano. Embora seja mais conhecida pela sua recomendação de adiar cirurgias de transição de género até à idade adulta, a ASPS vai além da questão cirúrgica e analisa o conjunto do percurso médico de transição em crianças e adolescentes.
Principais conclusões
A ASPS afirma existir:
“evidência insuficiente para demonstrar uma relação risco-benefício favorável para o percurso de intervenções endócrinas e cirúrgicas relacionadas com o género em crianças e adolescentes.”
Esta formulação é particularmente relevante porque não se refere apenas às cirurgias. Inclui também as intervenções endócrinas, nomeadamente:
- bloqueadores da puberdade;
- hormonas cruzadas (testosterona e estrogénios).
Assim, a ASPS considera que a evidência científica atualmente disponível é insuficiente para demonstrar um balanço risco-benefício favorável para o conjunto das intervenções médicas de transição utilizadas em menores.
Fundamentação científica e ética
A associação justifica esta posição com base em vários fatores:
- baixa qualidade e baixa certeza da evidência disponível;
- incerteza quanto aos benefícios psicológicos duradouros;
- insuficiência de dados de longo prazo;
- potenciais riscos físicos, funcionais e reprodutivos;
- irreversibilidade de parte das intervenções;
- limitações da capacidade de consentimento plenamente informado em adolescentes.
A ASPS sublinha ainda que intervenções com impacto potencial sobre a fertilidade, a sexualidade e o desenvolvimento futuro exigem padrões de evidência particularmente elevados.
Evolução natural da disforia de género
Outro aspeto relevante da posição da ASPS é o reconhecimento de que uma proporção significativa de crianças e muitos adolescentes deixam de apresentar disforia de género sem intervenção médica. Por essa razão, a associação considera essencial compreender
melhor quais os jovens cuja disforia persistirá ao longo do tempo e quais aqueles cuja situação poderá resolver-se ou evoluir de outra forma.
Esta incerteza reforça, no entendimento da ASPS, a necessidade de prudência antes da adoção de intervenções médicas com efeitos potencialmente permanentes.
Recomendação central
Perante a insuficiência da evidência disponível, a ASPS recomenda uma abordagem mais cautelosa relativamente às intervenções médicas de transição em menores e defende que procedimentos irreversíveis sejam, por norma, adiados até à idade adulta, salvo circunstâncias clínicas excecionais e cuidadosamente avaliadas.
Importância institucional
A ASPS representa mais de 11.000 cirurgiões plásticos e reconstrutivos e é uma das mais influentes organizações cirúrgicas dos Estados Unidos. A sua posição reforça uma tendência internacional crescente de maior prudência nesta área, alinhando-se com as
conclusões da Cass Review e com as revisões de políticas adotadas por vários países europeus.
Conclusão
A posição da ASPS não se limita a questionar as cirurgias de transição em menores. A associação considera que a evidência científica atual é insuficiente para demonstrar uma relação risco-benefício favorável para o conjunto das intervenções médicas de transição — incluindo bloqueadores da puberdade, hormonas cruzadas e cirurgias — em crianças e adolescentes. Por esse motivo, defende prudência clínica, avaliação rigorosa e a produção de evidência científica mais robusta antes da adoção de intervenções com consequências potencialmente irreversíveis.
Referência
American Society of Plastic Surgeons (2026). Position Statement on Gender Surgery for Adolescents.